Após a conclusão dos trabalhos de condicionamento acústico de um infantário propriedade da Cáritas Paroquial de Sines, obtivemos do perito nomeado pela instituição, Eng. José Carlos dos Santos Guinote, o testemunho que, pela sua importância e relevância, passamos a partilhar.
Um edifício recentemente construído vítima de um conjunto de anomalias construtivas não é, certamente, caso raro nos dias que passam. O infantário O Pintainho – propriedade da Cáritas Paroquial de Sines – inaugurado em 2011 é apenas mais um caso que pode testemunhar essa infeliz correspondência entre “recentemente construído” e “anomalias construtivas”.
Neste caso o deficiente comportamento do equipamento determinou que a Direcção da Cáritas nos solicitasse uma peritagem que permitisse ajudar a resolver os problemas de natureza diversa que afetavam o edifício. No âmbito desse trabalho – cuja dimensão foi sendo progressivamente ampliada na justa medida em que novos problemas, como o deficiente comportamento estrutural, impuseram a necessidade de construir respostas adequadas – um “não problema” ou uma “não anomalia” foi impondo a sua presença no dia-a-dia do trabalho realizado. Referimo-nos ao péssimo comportamento acústico do espaço interior, com destaque para o Refeitório ou para as salas em que as crianças do pré-escolar dão os primeiros passos na sua aprendizagem.
Claro que o edifício cumprirá a regulamentação no que respeita ao isolamento aos ruídos exteriores. Mas o problema é de outra natureza: é o ruído produzido no interior pelos utilizadores dos espaços que torna irreconhecível qualquer som que não seja produzido num nível próximo da berraria. Falar de mau ambiente acústico, de dificuldades de comunicação, de stress, de falta de concentração não podia ser mais apropriado para este equipamento. Com efeito, no Projecto não foi realizada qualquer avaliação do desempenho acústico de cada um dos espaços. Desempenho que é naturalmente determinado pelas características dimensionais das salas, pelo desempenho acústico dos materiais utilizados no revestimento dos pavimentos, das paredes e dos tectos, pelas características dos materiais utilizados para a realização das caixilharias exteriores e pelo número de utilizadores que em cada momento pode utilizar o mesmo espaço. Ficou assim comprometido o respeito pela disposição legal resultante do Decreto-Lei nº 96/2008 que determina a necessidade de, em edifícios escolares e em Refeitórios e corredores de grande circulação, ser tido em conta os tempos de reverberação sonora e a existência de áreas de absorção sonora.
Para resolver esta situação eliminando esta fonte de desconforto a Cáritas aproveitou a intervenção em curso para melhorar o desempenho acústico do edifício. Foi pedido a um gabinete de engenharia que dimensionasse uma solução que permitisse proporcionar às crianças e aos educadores um ambiente mais confortável e mais adequado quer para a aprendizagem quer para o ensino.
Foi apresentada uma solução com base nos Painéis Acústica XXI CF MLS com uma dimensão de 600 x 600 x 50 mm (constituídos por espuma revestida na face visível com mdf 3 mm rasgado, de forma a alternar zonas absorventes com zonas refletoras).
Concluída a primeira fase da intervenção com o tratamento/condicionamento acústico do Refeitório – sala com 200 metros quadrados de área na qual foram aplicados 80 painéis nas paredes e 110 painéis nos tectos – o resultado é notável. Todos os sons passaram a ser perfeitamente audíveis e por força disso as crianças tendem a falar mais baixo e as educadoras não necessitam de berrar para se fazerem ouvir sobre o ruído indistinto que caracterizava o som ambiente antes da intervenção. Os espaços tratados são espaços que proporcionam bem-estar aos seus utilizadores e que contribuem para facilitar a concentração possibilitando uma melhor aprendizagem e um dia a dia mais calmo a todos os seus utilizadores.
Esta opção da Cáritas Paroquial de Sines deveria servir de modelo para as intervenções que urge concretizar em muitas escolas e em equipamentos dedicados ao pré-escolar recentemente construídos em todo o Pais. Edifícios cujos projectos ignoraram qualquer avaliação do desempenho/condicionamento acústico dos espaços e que por isso não são eficazes a conseguir os objectivos para que foram construídos, funcionando como ambientes hostis para os seus utilizadores.
A arte de edificar necessita da conjugação de todos os saberes. Nenhuma edificação poderá conseguir atingir os seus objectivos se no projecto e na construção algum desses saberes não merecer a devida atenção. Se hoje já não é possível reunir na mesma pessoa o conhecimento de todas as disciplinas a que se referia Leon Battista Alberti, na sua obra Da Arte Edificatória, quando explicitava as características que alguém devia possuir para poder ser arquitecto, entendido na lógica renascentista de alguém que podia aspirar a deter todos os saberes, “Quanto a mim, proclamarei que é arquitecto aquele que, com um método seguro e perfeito, saiba não apenas projectar em teoria, mas também realizar na prática todas as obras que, mediante a deslocação dos pesos e a reunião e conjunção dos corpos, se adaptem da forma mais bela às mais importantes necessidades do homem. Para o conseguir, precisa de dominar e conhecer as melhores e mais importantes disciplinas. Assim pois deve ser o arquitecto.(…)” (p.138 da obra citada, edição de 2013 da F. Calouste Gulbenkian), é verdadeiramente imperdoável que o projecto possa continuar a ser realizado excluindo alguma parte do conhecimento disponível. As vítimas somos todos nós, sobretudo aqueles que, indefesos, têm que utilizar os espaços mal projetados e mal construídos. O conforto acústico não é um luxo é um direito associado ao direito à saúde e à educação e que não pode ser dissociado do direito a uma plena fruição dos espaços edificados.
José Carlos dos Santos Guinote
Engenheiro Civil pelo IST
Membro sénior da Ordem dos Engenheiros
Perito nomeado pela Cáritas Paroquial de Sines
josecarlos.guinote@gmail.com
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